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Desastre Econômico do Século - José Henrique Polary


Data: 4 de maio de 2020
Crédito: Coordenação de Comunicação e Eventos do Sistema FIEMA
Fotos: COCEV FIEMA
Fonte da notícia: José Henrique Polary

Ao final de 2019, o mundo foi informado do surgimento, em Wuhan, China, dos primeiros passos de uma doença letal, de elevada propagação, e até então desconhecida, e que veio a ser conhecida como COVID-19, não identificada em seres humanos, no princípio.

Bastaram dias e poucos meses para que o acelerado avanço da doença levasse as autoridades de saúde a aceitarem a sua gravidade para as populações em escala mundial e com os desdobramentos sobre a vida dos sistemas econômicos, em todas as fronteiras. Via-se um crescimento assimétrico da degeneração da saúde das pessoas, de um lado, e da saúde econômica das empresas, dos trabalhadores e suas famílias, do outro.

Há uma emergência de saúde e a ela associada uma crescente perda de produção, com a agravante de não se saber qual duração, intensidade e real extensão da crise. Nesse contexto, os remédios para a emergência sanitária são tão desafiadores quanto o são para conter a doença da economia.

É a iminência de mortes de pessoas físicas e, simultaneamente, de pessoas jurídicas. Isto faz com que esse choque de agora seja diferente, em muitos aspectos, daquele provocado pela crise financeira de 2008. Para alguns especialistas, inclusive, a crise provocada pelo COVID-19 deve superar a da Grande Depressão do final da segunda década do século passado, porque afetando economias grandes, médias ou pequenas, países desenvolvidos, não desenvolvidos ou emergentes, empresas locais, nacionais ou transnacionais, com circulação de informação a uma velocidade extremamente maior.

Quarentenas, lockdowns e distanciamento social têm sido utilizados pelos países para diminuir a propagação do novo coronavírus, mas, ao mesmo tempo, têm sido combustível para queimar as atividades econômicas, com a queda do trabalho, da renda e da demanda, de forma generalizada. O paradoxal nessa história é que, “parando” a economia, os governos e formuladores de políticas públicas precisam encontrar meios de garantir o suprimento de necessidades essenciais de sua população, diante de orçamentos fiscais estrangulados.

O impacto que a crise do coronavírus está e vai continuar provocando na economia ainda não foi calculado, mas os números preliminares apontam para perdas dificilmente recuperáveis para todos os países. Algo como uma recessão global.

Impactos na economia mundial

Uma das primeiras medidas adotadas pela China, segunda maior economia do mundo, para enfrentamento do coronavírus, na contenção da disseminação da doença em seu território, inclui o fechamento de fábricas e lojas em todo o país, durante várias semanas depois do feriado do Ano Novo chinês, em fevereiro. As consequências se fizeram notar nos indicadores relativos à produção industrial, vendas a varejo e investimentos em ativos fixos.

A produção industrial chinesa, que mede as atividades de manufatura, mineração e serviços públicos, a quedas, dois primeiros meses do ano, foi de 13,5% (quatro vezes maior do que o esperado), relativamente ao mesmo período de 2019. Esta foi a primeira contração desde janeiro de 1990.

As vendas a varejo, segundo o Escritório Nacional de Estatística da China, sofrem uma queda de 20,5%, jamais registrado em toda a série histórica. Este indicador é importante porque ele reflete o comportamento do consumo chinês, e o baque foi equivalente a cinco vezes o resultado esperado pelos especialistas (4%). Ficando em casa, os consumidores gastam menos e a demanda cai fortemente. Caindo esta, a produção industrial também cai.

Os investimentos em ativos fixos (infraestrutura, propriedades, máquinas e equipamentos) foram ainda mais longe, caindo 24,5%, ou seja, uma queda seis vezes maior do que esperavam inicialmente.

No ano passado, vale ressaltar, a economia chinesa crescera 6,1%, sendo considerada a menor taxa em trinta anos. Projeções do Fundo Monetário Internacional incluídas no World Economic Outlook, publicadas no último dia 13.04.2020, admitem que o PIB chinês venha a crescer à taxa de 1,2%, se a recuperação das atividades produtivas acontecer num ritmo acelerado a partir deste primeiro semestre. Para isso, o governo aposta na expansão do consumo doméstico.

No primeiro trimestre deste ano, a economia chinesa já registrou uma queda de 6,8% nas estimativas do Produto Interno Bruto.

Em recente entrevista ao Valor Econômico, o chinês Andy Xie, ex-economista-chefe do Morgan Stanley para a Ásia-Pacífico, acredita que o “PIB chinês pode terminar 2020 com uma queda extraordinária de 20%”, dando a entender que governo esconde informações. O certo é que grandes empresas têm sofrido muitas restrições que afetam suas cadeias de valor.

O mercado externo chinês, no entanto, será fortemente condicionado à recessão em outros países, principalmente porque a China é hoje o maior país exportador de mercadorias do mundo.

As estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o PIB mundial, em 2020, no entanto, apontam uma queda de 3,0%, depois de 2,6% em 2019 e 3,6% em 2018. Comparativamente, há uma variação negativa de 6,6% pontos percentuais entre 2018 e o esperado para o corrente ano. E assim mesmo na premissa de que a pandemia seja controlada no segundo semestre e as atividades econômicas ganhem ritmo de normalidade.

Fica evidente, nos gráficos a seguir, o tamanho da recessão econômica, tanto nas economias avançadas, quanto nos mercados emergentes e economias em desenvolvimento. Para as primeiras, as estimativas calculam uma queda de 6,1% no produto, depois de 1,7% em 2019 e 2,2% em 2018. A crise tornou maior o desastre econômico. Nesse grupo, Estados Unidos tem uma taxa de crescimento projetada em menos 5,9% para este ano, que pode ser ainda mais alta se não houver rápida reversão da crise sanitária, já no segundo semestre.

A situação americana fica mais grave quando se verifica que mais de 22 milhões de pessoas já solicitaram o Auxílio Desemprego e esse número deve crescer nas próximas semanas. No mês de fevereiro, a taxa de desemprego nos Estados Unidos atingiu 3,5%, a mais alta dos últimos 50 anos.

Na Zona do euro o impacto se mostra ainda mais forte, seja no seu conjunto, seja na visão individual de cada país membro. No conjunto, a queda prevista é de -7,5% para este ano; -7,0% na Alemanha; -7,2% na França; -9,1% na Itália; e -8,0% na Espanha. Na Grécia, o percentual fica em -10,0% e em Portugal, -8,5%.

Todos esses índices superam, de longe, os previstos para os Mercados emergentes e economias em desenvolvimento, cuja perda estimada é de -1,0% apenas, isto não houver agravamento com a crise sanitária.

Na realidade, o relatório do Fundo Monetário Internacional aponta que 170 de um total de 189 países devem sofrer queda no PIB per capita este ano, o que, por si só, representa um grande desastre sobre a demanda agregada. (BOXE)

Fazendo uma leitura para a América Latina e Caribe, a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) projeta uma situação muita crítica e pessimista para este ano. “Se houver uma redução de 1,8% do produto interno bruto em toda América Latina e Caribe por causa da doença, a taxa de desemprego na região poderá aumentar em dez pontos percentuais”, diferindo da previsão anterior (crescimento de 1,3%). Confirmando-se essa previsão, o número de pessoas pobres, ainda segundo a CEPAL, crescerá de 185 milhões para 220 milhões, sendo 90 milhões o quantitativo daqueles em situação de extrema pobreza.

Em termos de comércio internacional, o desastre econômico aparece nas estimativas da taxa de crescimento do volume do comércio mundial (bens e serviços) apresentadas pelo FMI, ou seja, queda de 11,0% e isto se mostra refletido tanto nas importações quanto nas exportações, nas economias avançadas e também nos mercados emergentes e nas economias em desenvolvimento. Os índices negativos não são muito distantes entre os tipos de transação ou os tipos de economia, mas acentuam a gravidade da derrocada, quer em relação ao ano passado, quer relativamente a 2018 e onde os mercados emergentes (entre eles, Brasil, China, Índia) tinham melhor desempenho.

Com as restrições impostas em função do controle do coronavírus, o fluxo internacional de comércio foi diretamente afetado. Em cima disto há que destacar ainda as tensões nas relações entre Estados Unidos e China, bem como a disputa entre Rússia e Arábia Saudita, que empurrou os preços do petróleo para níveis inesperados. Nos cálculos do FMI, os preços do petróleo despencaram mais de 52 pontos percentuais com referência, por exemplo, aos praticados em 2018, com preço negativo de US$ -10,2 (as empresas pagando para o comprador comprar). As quedas nos preços de commodities não combustíveis foram muito menos acentuadas.

Verifica-se, em síntese, que a pandemia do novo coronavírus representa a “maior ameaça à economia global desde a crise financeira de 2008”, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e, na visão da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), “poderia custar à economia global até US$ 2 trilhões (cerca de R$ 10 trilhões) neste ano”.

Outra dimensão da crise está no volume de desemprego criado pelo coronavírus. Só nos Estados Unidos são calculados, até agora, 22 milhões de pedidos de seguro desemprego, segundo dados do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos; no Reino Unido já se contabilizam 2 milhões.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 1,25 bilhão de trabalhadores se acham em setores com alto risco de demissão, redução de salários e de horas trabalhadas, situação que se agrava ainda mais quando leva em conta que, na economia global, há cerca de 2 bilhões de trabalhadores informais - a maioria deles nas economias emergentes e em desenvolvimento – e estes são os primeiros atingidos pelas consequências da pandemia.

Para a OIT, com a expansão do desemprego provocada pela COVID-19, aprofundar-se-á “a pobreza no mundo, com uma perda de renda para os trabalhadores de US$ 3,4 trilhões em 2020”, isto sem falar subemprego decorrente da redução de salários e de horas trabalhadas. Reação imediata aparece na queda do consumo mundial de bens e serviços.

Impactos sobre a economia brasileira

A economia brasileira, nos últimos anos, vinha dando sinais – fracos, é verdade – de retomada de recuperação, com uma sequência de três exercícios seguidos com taxas positivas de crescimento no produto interno bruto.

A partir de janeiro, no entanto, com a divulgação da expansão do coronavírus na China e as medidas restritivas postas em prática e que se refletiram no comércio internacional, nas taxas de câmbio e nos preços relativos das commodities, o cenário foi-se transformando e ficando cada vez mais turvo.

Projeções iniciais de 2,0% na taxa de crescimento do PIB para o ano de 2020 foram sendo sucessivamente revisadas até chegar a 0,02%, mas, ainda assim, positiva. Despertava, na equipe do governo, os sinais da crise financeira de 2008/2009 e o impacto de greve dos caminhoneiros de 2018, com repercussões fantasmagóricas até os dias de hoje.

A expansão do coronavírus nos principais centros urbanos do país levou as autoridades à adoção de várias medidas restritivas de mobilização das pessoas, com destaque para quarentenas, distanciamento social, restrições ao trabalho e até ameaças de lockdown, as quais culminaram com suspensão temporária ou indeterminada de atividades econômicas, fossem de indústria, comércio ou serviços. As consequências logo se mostraram e a possibilidade de desabastecimento não foi descartada, o que seria o real aprofundamento do desastre econômico.

A Fundação Getúlio Vargas chegou a estimar que o PIB brasileiro poderia cair até 4,4% neste 2020, mas o Fundo Monetário Internacional, em seu relatório World Economic Outlook, divulgado em 13.04.2020, projetou uma queda ainda maior (-5,3%) e, assim mesmo, acreditado que a pandemia poderia estar controlada no princípio do segundo semestre (BOXE).

Medidas monetárias, fiscais e financeiras implantadas pelo governo e iniciativas do setor privado visando a retomada da recuperação econômica estão em curso, mas não há qualquer certeza de que assim aconteça sequer a médio prazo.

Aliás, convém ressaltar que essas medidas têm papel fundamental para uma tentativa de manter ativa uma interação econômica entre empresas e trabalhadores, credores e devedores, assim como entre aqueles que respondem pela garantia da oferta de infraestrutura econômica e logística, tanto nos seus aspectos formais quanto informais das atividades de produção e distribuição de bens e serviços.

Nesse tipo de crise sanitária e econômica não há dano apenas local. Ele se expande sem fronteira porque a infecção altamente contagiosa se generaliza sobre todos os espaços onde existe gente e as pessoas se comunicam fisicamente. Pessoas infectadas significam menos oferta de mão-de-obra.

As medidas adotadas para controlar a proliferação da pandemia do coronavírus (quarentenas, lockdowns, distanciamento social horizontal ou vertical) reduzem drasticamente a mobilidade, com as pessoas tendo que ficar recolhidas às suas unidades residenciais. Na medida em que isso acontece, setores produtivos mais sensíveis à mão-de-obra são diretamente afetados, a exemplo do turismo, lazer, hotéis, bares e restaurantes, shopping centers e o comércio de um modo geral. Com restrição na circulação das pessoas, caem os gastos com bens e serviços e as empresas, não tendo para quem vender, promovem demissões e deixam de comprar insumos e matérias-primas e, dessa forma, afetam as vendas das empresas fornecedoras. Estas, por sua vez, sem compradores, desempregam, e assim sucessivamente para outros setores de atividade.

Se não há produção para circular, porque não há renda para comprar, os governos deixam de arrecadar e, como não têm a flexibilidade de demissões como o setor privado, endividam-se para honrar suas despesas com folha de vencimentos. Enfim, é uma espiral descendente de forma crescente.

Com a proibição de entradas e saídas pelos aeroportos de vários países do mundo, e com a grande parte dos clientes (os idosos) isolados em casa, quantas empresas aéreas deixaram de operar e muitas delas, certamente, não voltarão mais a voar?

Por conta do coronavírus, as principais empresas aéreas do Brasil reduziram os seus voos, em percentuais que variam de 90% a 95%, o que representa custos muito altos, pois manter uma aeronave parada em um hangar significa despesas. A falta de passageiros é ainda mais crítica quando se leva em consideração que a quase totalidade das empresas operam suas aeronaves em regime de arrendamento. O custo de arrendamento de um Boeing 737-800 pode chegar a US$ 100 milhões. Mesmo que rateado ao longo de muitos anos, o “fardo” é pesado se as aeronaves ficam no chão.

As receitas internacionais do setor de turismo devem perder entre US$ 300 e US$ 450 bilhões este ano, segundo projeções da Organização Mundial do Turismo.

Aviões sem voar afetam diretamente toda a cadeia de turismo: empresas aéreas, agências de viagem, guias turísticos, produtores artesanais, hotéis, bares, restaurantes, empresas de comunicação voltadas para o setor e tantas outras.

A título de exemplo, transcreve-se, aqui, notícia publicada pelo jornalista Diego Emir, em São Luís (MA): “Além da Cabana do Sol, os restaurantes Feijão de Corda e Flor de Vinagreira anunciaram a demissão de 80 funcionários; o do da franquia Bob’s em São Luís, demitiu 45 trabalhadores; a Pizzaria Vignoli despediu 40 colaboradores; a churrascaria Sal e Brasa comunicou 80 demissões. As lanchonetes Bulldog e a pizzaria Novo Giotto também vão anunciar demissões”. Isto só na primeira semana da crise da pandemia na capital maranhense. Dificilmente, algumas voltarão a funcionar, até porque são atividades que dependem de “aglomeração”. Passada a crise, quanto tempo levará para que as pessoas percam medo de novo contágio e voltem a se reunir em ambientes públicos?

O Brasil, que já registrava cerca de 12 milhões de desempregados antes da pandemia, pode mais do que dobrar esse número uma vez que estimativas da OIT admitem que a crise do COVID-19 deve gerar mais 14 milhões de desemprego, o que seria um desastre extremo.

O novo Ministro da Saúde do Brasil, o médico e empresário Nelson Teich, em sua fala quando apresentado pelo Presidente Jair Bossonaro, enfatizou que saúde e economia não são competitivas mas complementares, onde ações de um segmento não devem prejudicar o outro.

Nas circunstâncias atuais, o que se está verificando é que as iniciativas governamentais da área de saúde, voltadas, num primeiro momento, para a contenção do avanço do coronavirus, a exemplo da quarentena e isolamento social, têm provocado o fechamento de unidades econômicas, queda de demanda, do emprego e da renda. A incerteza do controle completo do vírus e da extensão temporal da pandemia levam, necessariamente, à certeza de que a economia não pode ficar parada por mais tempo. Este é o dilema a enfrentar: descobrir o ponto de equilíbrio da coexistência entre as medidas adequadas à saúde das pessoas e as medidas de recuperação e crescimento das atividades econômicas – saúde das empresas. A liquidação do vírus é a preservação das pessoas, da vida; o fechamento das empresas e dos postos de trabalho é o desastre da economia e se esta não funcionar não tem como produzir os insumos e os medicamentos que a saúde precisa para combater o vírus.

São assustadoras as perdas já contabilizadas até o momento. A recuperação delas se arrastará por alguns anos, até porque muitas das empresas que, agora, suspenderam suas atividades não voltarão mais para o mercado. E os investidores precisarão estar seguros de que os riscos aliados aos seus investimentos são calculáveis e previsíveis.

É apostar nessa loteria.

José Henrique Polary

*Economista, ex-Professor da UFMA, Coordenador de Ações Estratégicas da FIEMA

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