Brasília/São Luís - A falta de mobilidade nas cidades grandes trava o desenvolvimento do país. Estudo encomendado pelo Conselho de Infraestrutura da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o tempo médio gasto em deslocamentos urbanos cresceu 20% entre 2003 e 2010, em função da expansão das cidades e do aumento das distâncias. A consequência é a redução da qualidade de vida da população, o que afeta diretamente a produtividade do trabalhador e a competitividade do setor produtivo.
A atualidade e relevância do tema levaram a Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (Fiema) a trazer a discussão para o âmbito regional. Por isso, Planejamento e Mobilidade Urbana será o assunto principal da 8ª edição do Encontro com Empresários, que acontecerá no dia 21 de setembro, na Casa da Indústria Albano Franco, em São Luís.
Para o 8º Encontro, já estão confirmadas as participações das palestrantes Lúcia Mendonça (MCID), Margareth Uemura (Instituto Pólis de São Paulo) e do arquiteto e urbanista maranhense, Gustavo Marques, que vai falar do Planejamento Urbano frente ao Crescimento Desordenado das Cidades e suas Expectativas.
O objetivo geral do evento é criar um fórum de discussões e de busca de soluções para o entrave, analisando a ocupação desordenada e suas consequências no contexto nacional e local. Além disso, faz parte da proposta refletir sobre planejamento urbano sob a ótica da mobilidade, meio ambiente e desenvolvimento social.
O evento deve reunir empresários, gestores públicos, profissionais que atuam na área, Crea, sindicatos e diretoria e conselhos temáticos da Fiema.
Estudo – O estudo Cidades: mobilidade, habitação e escala é o primeiro de uma série de ações que a CNI pretende fazer para colocar as cidades no centro do debate nacional. O estudo será entregue ao governo federal, estaduais e municipais para posicionar a CNI dentro dessa discussão.
“Nossa percepção é de que as cidades brasileiras estão parando. Esse não é mais um problema exclusivo de São Paulo e do Rio de Janeiro e tem impacto sobre a produtividade da indústria, uma vez que afeta o fluxo de mercadorias e de trabalhadores. As cidades são a fonte principal de desenvolvimento das cadeias produtivas e de inovação do país”, afirma o diretor de Políticas e Estratégia da CNI, José Augusto Coelho Fernandes.
Com o estudo, a CNI está reforçando a importância do debate do tema Cidades num contexto de eleições municipais, assim como está contribuindo para a discussão aberta pelo Plano Nacional de Mobilidade, que o governo federal anunciou e está investindo R$ 7 bilhões. O diretor de Políticas e Estratégia da CNI comenta que as cidades são centros de ideias e inovação para o setor industrial, já que nelas estão localizadas as universidades, os centros de conhecimento e as empresas. As grandes empresas estudam detalhadamente onde pretendem montar seus centros de pesquisa e desenvolvimento. “A questão da mobilidade é um fator fundamental para esta tomada de decisão. Se as cidades brasileiras não se estruturarem e não tiverem condições de oferecer boa receptividade para os investidores nacionais e internacionais, o país se torna cada vez menos competitivo e afasta empresários interessados em fazer negócios”, afirma José Augusto.
Deslocamentos - A produtividade é afetada também quando os profissionais são obrigados a passar mais tempo no trânsito do que o necessário. O estudo mostra que cada morador de uma das 12 metrópoles brasileiras gasta, em média, uma hora e quatro minutos para fazer seus deslocamentos diários. O número é uma média do tempo gasto nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre e Recife. Juntas, elas abrigam quase metade (45%) da população urbana brasileira, o que é número volumoso, considerando que o Brasil é um país essencialmente urbano – 85% da população vivem fora do campo. Nas cidades médias, que têm entre 100 mil e 500 mil habitantes, o tempo despendido para locomoção é bem menor, de 31 minutos.
Além do tempo gasto pela população, um entrave ao desenvolvimento socioeconômico é o quanto se gasta para garantir a locomoção das pessoas. O custo da mobilidade nas metrópoles, que envolve, entre outros fatores, os dispêndios com construção, operação e manutenção do sistema viário, é quatro vezes maior que o custo nas cidades menores.
A visão da CNI é de que a dificuldade para se locomover está no topo dos problemas urbanos vividos nas grandes cidades brasileiras. Mas a ligação com os problemas de habitação é bem estreita. As pessoas optam por morar em favelas, e não áreas com preços similares, mas mais distantes do centro das cidades, para fugir do trânsito. De acordo com o estudo, 88% dos domicílios irregulares estão nas regiões metropolitanas. Todas essas questões devem ser pensadas no momento de formulação das políticas públicas. “Para tratar o problema das cidades é preciso ter governança, planos de logística, gestão e planejamento. É preciso se planejar e ter visão estratégica sobre o futuro”, afirma José Augusto.
Coletivo – De acordo com o estudo, entre 2003 e 2010, o crescimento demográfico no Brasil foi de 13% enquanto o número de veículos em circulação aumentou 66%. O transporte individual apresenta um custo mais elevado para o poder público. O cálculo é de que o transporte individual é 14 vezes mais oneroso para o Estado do que o transporte coletivo. Nesse quesito, estão incluídos os custos de construção, operação e manutenção do sistema viário que viabilizam a circulação do transporte individual, além dos custos da poluição e acidentes. As viagens em transportes coletivos representam 36% do total de deslocamentos feitos, mas representam apenas 23% dos dispêndios de combustíveis.
A CNI defende a utilização de transporte coletivo de alto rendimento para deslocamentos rotineiros. O objetivo deve ser o investimento em transporte coletivo e em um sistema multimodal de transportes. “Temos de revisar a matriz de transporte brasileiro. Precisamos pensar nos ganhos do transporte coletivo do ponto de vista ambiental, social e econômico, em função dos elevados custos financeiros, energéticos, sociais e urbanísticos”, comenta José Augusto.